Toda Palavra - cortesia - versão digital Toda Palavra - Número 37 - Page 5

Janeiro de 2019 - Niterói www.todapalavra.info - 5 Pagamentos a Rodrigo Neves eram acertados em diversos pontos de encontro A ‘rota da propina’, segundo o MP José Messias Xavier Os pontos em vermelho no mapa marcam os locais de encontro para entrega dos "rascunhos" A engenharia política que pode manter Bagueira como prefeito (Continuação da 1ª página) Essa interpretação esbarra no te- mor da maioria dos vereadores - em especial os governistas e a bancada de esquerda - de que a convocação de uma eleição suplementar possa guindar à cadeira de prefeito o ex-ve- reador e hoje deputado federal, eleito com mais de 200 mil votos, Carlos Jordy (PSL), ou algum outro nome apoiado por ele e pelo presidente Jair Bolsonaro. Para essa maioria a solução poderia ser, como revelou o TODA PALAVRA em primeira mão, um trabalho de engenharia política para manter como prefeito o verea- dor Paulo Bagueira, que, na condição de presidente da Câmara, assumiu interinamente a prefeitura, já que a renúncia do deputado estadual Com- te Bittencourt (PPS) deixou a cidade sem vice-prefeito. De acordo com a Lei Orgânica, Bagueira só poderia terminar o mandato de Rodrigo se o afasta- mento do prefeito se desse no seu último ano. Qual a solução? Mudar a Lei Orgância. Como político habi- lidoso que é, Bagueira, na condição de prefeito interino, tem respeitado o dono da cadeira em sua ausência e feito uso da caneta apenas em casos extraordinários. Para a base governista, a sua permanência se- ria preferível à incerteza de uma nova eleição. Um constrangido e humilde chefe do Executivo trabalha hoje sem pres- sa, confiando que a política ditará o seu próprio fluxo. Como suplente de um deputado estadual eleito que também se encontra preso e inca- paz de assumir o mandato, Bagueira terá, a partir de fevereiro, um prazo de 60 dias para definir seu futuro: ou a prefeitura, ou a Alerj. Na Bíblia que Rodrigo levou para a cadeia e na qual diz meditar diaria- mente está escrito: "Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humil- des" (I Pe, 5.5). A Operação Ponto Final, defla- grada por investigadores federais e procuradores da República em julho de 2017, não apenas levou para a ca- deia a cúpula do empresariado dos transportes do Estado e fez desmo- ronar o esquema político de propinas do setor, atingindo o ex-governador Sérgio Cabral e os velhos caciques da Assembleia Legislativa (Alerj). A ação, através da simples apreensão de um aparelho celular, consolidou parte das provas que, um ano e cinco meses depois, possibilitaram a pri- são do prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, de seu ex-secretário Domício Mascarenhas de Andrade e dos pre- sidentes dos consórcios de ônibus Transoceânico e Transnit, João Car- los Félix Teixeira e João dos Anjos Silva Soares, respectivamente. Eles são acusados de desviarem R$ 10,9 milhões dos cofres públicos para pagamento de propinas, dinheiro que teria sido retirado do repasse da Pre- feitura para as empresas de ônibus pela gratuidade das passagens para estudantes, idosos e deficientes, além de seus acompanhantes. O celular apreendido pertence a Marcelo Traça Gonçalves, um milio- nário empresário de ônibus e criador de gado, que foi presidente do Sin- dicato das Empresas de Transpor- tes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Setrerj) e dirigente da po- derosa Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Esta- do do Rio de Janeiro (Fetranspor). O conteúdo do telefone é considerado nitroglicerina pura pelos promotores e procuradores, e, até hoje, está sob análise dos setores de Inteligência da Polícia Federal, do Ministério Público Federal (MPF); e da Polícia Civil e do Ministério Público do Estado (MPRJ). Foi através da análise da troca de mensagens de Traça com Rodrigo Neves e Domício Mascarenhas, por meio de um aplicativo, que os investi- gadores puderam traçar uma espécie de “rota da propina”, supostamente paga pelas empresas de transportes ao chefe da administração pública municipal niteroiense. Ali constam locais de encontros entre os três e ainda entre eles e João Félix e João dos Anjos. Essas informações pos- teriormente foram confirmadas pelo próprio dono do celular, através de delação premiada, que acrescentou detalhes sobre as reuniões e os as- suntos, que nelas foram tratados. O cruzamento de dados do celular com o depoimento de Traça formam a base da acusação contra o prefeito e seu ex-secretário. Seus conteúdos foram encaminhados ao MPRJ, que, junto com a Delegacia Fazendária do Rio, realizou a Operação Alameda, responsável por suas prisões e as dos presidentes dos consórcios de trans- portes de Niterói. Os locais dos encontros, com ou sem a presença de Rodrigo Neves, são vários, assim como os horários. Al- guns são inusitados, como postos de gasolina, shoppings, um supermer- cado e até um CIEP, ao lado do Motel Leton, na Rodovia Amaral Peixoto, no bairro do Caramujo. Outros são mais “oficiais”, como a própria sede do Se- trerj, na Alameda São Boaventura, que terminou por batizar a operação estadual. Há ainda registros de reuni- ões em restaurantes sofisticados, na Zona Sul do Rio de Janeiro e em Ni- terói. Entre os primeiros, o Da Brambi- ni, no Leme, e o Fasano, de Ipanema. “Tais encontros com a presença do Prefeito Rodrigo Neves aconteciam, pelo menos uma vez ao ano, prefe- rencialmente ao fim de cada exercí- cio financeiro, em ambientes de alta gastronomia, como ocorreu no dia 30/12/2015, no restaurante Fasano, situado em Ipanema, no Rio de Janei- ro, e tinham por objetivo estreitar os laços entre os agentes, acertar a libera- ção de pagamentos a título de gratui- dade, bem como os correlatos retornos financeiros ilícitos e, ainda, reforçar a autoridade do denunciado Domício Mascarenhas perante aquele grupo econômico”, escreveram Fernando Chaves da Costa, subprocurador-Ge- ral de Justiça de Assuntos Criminais e de Direitos Humanos e José Eduardo Ciotola Gussem, procurador-geral de Justiça do Rio, na denúncia contra Ro- drigo Neves encaminhada à Justiça. (continua na página 6)