Toda Palavra - cortesia - versão digital Toda Palavra - Número 37 - Page 4

(continuação da página 3) Os mapas revelam também que a relação entre risco e perda não técnica (furto de energia) está di- retamente associada à presença de grupos armados, de naturezas diversas, cujo exercício do controle armado impõe, nos territórios sob seu governo, regimes diferencia- dos de regulação de bens e de seu consumo, especialmente aqueles estratégicos, como luz, água e gás. Explicam os autores que as fronteiras entre a convivência com práticas clandestinas e ile- gais pode fomentar outras "irregu- laridades", resultando numa cons- tante mudança na espacialização geográfica dos crimes, bem como dos atores envolvidos, no caso, tra- ficantes de drogas e/ou milicianos. Os distintos arranjos particulares de venda de proteção, mediante a cobrança de taxas e outras con- tribuições dos moradores, afetam diretamente os modos de acesso e controle às áreas classificadas como de maior desigualdade de renda, menor desenvolvimento humano, com infraestrutura pre- cária e baixa urbanização. A simples indicação de presença desses grupos armados representa o risco de monopolização de recursos que, por sua vez, podem resultar em desdobramentos, ou seja, o “domínio armado” se apresentar sob a forma de apropriação de moradias e bens, a imposição de diversas formas de resolução violenta e ilegal de confli- tos, chegando até mesmo ao “justi- çamento” e às execuções sumárias. O dinamismo do crime se caracte- riza, portanto - destaca a pesquisa -, pela construção de um mercado ilícito, marcado pela "venda de pro- teção" após a criação das ameaças, a exploração ou a prestação precária de serviços essenciais públicos ou privados, nos quais se pode incluir o fornecimento clandestino de luz e água, a venda de botijão de gás, o controle de circulação de transporte “alternativo” feito por vans, Kombis ou mototáxis, bem como o acesso clandestino a TV a cabo. Todos esses crimes constituem em inestimáveis fontes de receita às práticas crimino- sas em rede. De acordo com as conclusões finais da pesquisa, a existência de governos autônomos ilegais e de suas disputas pela sustentação ou ampliação de seus domínios, apre- senta-se como um fator que afeta diretamente a execução da presta- ção de serviços pela empresa. “A relevância das perdas não técnicas como um problema social é grande porque elas impactam o valor da tarifa paga pelo consu- midor final”, observa a pesquisa. Segundo uma consultoria da em- presa A.T. Kearney, divulgada pela revista Valor, as perdas de energia provocadas por furtos ou fraude, conhecidos popularmente como os "gatos" no Rio de Janeiro, custaram aos consumidores o total R$ 3,6 bi- lhões no ano de 2016. “ Janeiro de 2019 Uma metodologia inédita Os Mapas de Per- cepção de Riscos resultam da articulação das metodologias quantitativa e qualitativa (multi- metodos) sobre a discussão acer- ca do direito de acesso à energia e políticas públicas de segurança. A pesquisa demonstrou como os territórios da cidade podem ser afetados pelo fenômeno “domínio armado” e o quanto os serviços essenciais (como fornecimento de energia elétrica, por exemplo) se transformam em ‘mercados ile- gais”, uma vez que o que está em disputa não é apenas o controle do território para venda de dro- gas, mas também a monopoliza- ção de prestação de serviços – de segurança, fornecimento de gás, luz, GatoNet, etc. A compreensão do conceito ‘dominio armado’ é o que torna o “Mapa de Percepção de Risco” uma metodologia inédita, capaz de delimitar os graus de risco de uma localidade com precisão, já que em sua composição são consi- deradas as percepções subjetivas da população residente na região e a dos funcionários da distribui- dora de energia, com variáveis quantitativas. A partir dos dados qualitativos e quantitativos produzidos pela pesquisa foi possível reconhecer e circunscrever as áreas de risco de uma forma dinâmica e processu- al, e não de forma estática, conge- lada no tempo. Para tanto, foram exploradas três dimensões expli- cativas interrelacionadas sobre o que seja área de risco para a pres- tação de serviços de energia elé- trica nos municípios pesquisados: domínio armado, reputação do lu- gar e criminalidade violenta. To- mou-se como rumo metodológico para identificação e delimitação das áreas de risco o mapeamen- to das percepções e das vivências dos trabalhadores, que realizam as atividades de campo relaciona- das à oferta de energia. As análi- ses qualitativas e quantitativas lançaram destaque para quatro áreas principais: Jardim Catarina e Salgueiro, em São Gonçalo; Sa- racuruna e Parada Angélica, em Duque de Caxias. Ana Paula Mendes de Miranda Pesquisadora da UFF Quem são os coordenadores da pesquisa da UFF PROPPI/UFF). Professor do PPGA da UFF. Foi Pró-Reitor de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação (PROPPI UFF) e vice-presidente da Associa- ção Brasileira de Antropologia. Ana Paula Mendes de Miranda Roberto Kant de Lima Antropólogo, doutorado em Harvard, pós-doutorado na Uni- versity of Alabama. É coordenador do Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Administração Ins- titucional de Conflitos (NEPEAC/ Antropó- loga, com doutorado pela Univer- sidade de São Paulo, é p ro fe s s o r a do Progra- ma de Pós- -Graduação em Antropologia da UFF. É coordenadora do Curso de Especialização em Políticas Públi- cas de Justiça Criminal e Seguran- ça Pública (AFiDE/UFF). É pes- quisadora do INCT-INEAC (UFF), e especialista em pesquisas sobre implementação de políticas públi- cas e gestão da informação em se- gurança pública. Jacqueline Oliveira Muniz Antropóloga, cientista política, professora do Departamento de Segurança Pública da UFF. Possui mestrado em Antropologia Social “ 4 - www.todapalavra.info - Rio e Pós-doutorado em Estudos Estra- tégicos pelo PEPCOPPE/UFRJ. Foi diretora do Departamento de Pes- quisa na área de segurança pública do Ministério da Justiça e diretora da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro.