Toda Palavra - cortesia - versão digital Toda Palavra - Número 37 - Page 11

Palavras - www.todapalavra.info - 11 Janeiro de 2019 José Messias Xavier ABL doa livros à lusofonia Fragatas de guerra brasileiras estão cruzando os mares com uma carga preciosa. São livros que a Academia Brasileira de Letras, em parceria inédita com a Marinha do Brasil, está doando para países lusófonos. A primeira leva seguiu em agosto do ano passado para Angola. Agora em janeiro mais um navio está deixado a base naval de Mocanguê, em Niterói, em direção a Moçambique, levando também uma remessa de livros doados pela ABL. O presidente da instituição, Marco Lucchesi, está animado com a possibilidade de novas doações de livros poderem ser feitas para povos falantes do português no ex- tremo Oriente, como o pequeno e necessitado Timor Leste, na Ocea- nia. Mas isso ainda depende dos fu- turos roteiros a serem anunciados pela Marinha, que tem aproveitado a suas viagens previamente agen- dadas para levar a carga da cultura além mares. Fragatas brasileiras estão cruzando os mares levando cargas de livros para países lusófonos Gastronômia de Lumiar ganha novo restaurante alemão Comandado pelo chef Peter Graban, um economista alemão que adotou o Brasil, o restauran- te O Alemão é a novidade gastro- nômica da Serra Fluminense. O novo establecimento, que ofere- ce os mais tradicionais pratos da culinária alemã fica localizado no Espaço Nagib Pedro, no Centro de Lumiar, em Nova Friburgo. Além de salsichas, batata ros- tie e das deliciosas carnes defu- madas, a casa também oferece o levíssimo chope Buzzi, fabricado em San- ta Maria Madalena e consi- derado uma das melhores produ- ções cer- ve je iras artesa- nais do país. Peter Graban veio há 24 anos em uma viagem de férias ao Bra- sil para não mais voltar. Ele aban- donou uma promissora carreira na Bolsa de Valores de Nova York para oferecer comida honesta e a preços justos aos brasileiros. Um gigante entre as nações O tema da coluna este mês seria o soneto. Essa ‘pequena canção’ cos- tuma fazer alguns autoproclamados pós-modernos torcerem o nariz, pois amarra todo o processo construtivo do poema em apenas três formas fi- xas (italiano, inglês e monóstrofo); e, para os puristas, também na estru- tura do tema, na métrica, nas rimas e na acentuação rítmica. Tudo bem: há uma quarta, raríssima, que é o es- trambote, adotado por Cervantes, en- tre poucos. Por isso, surpreende o fato de jovens estarem mergulhando, com paixão e talento, nesse estilo de po- esia, inclusive aqui em Niterói. Mas esse papo vai ficar para uma próxima. Morreu em 28 de dezembro, ao anoitecer do shabat em Tel Aviv, Amos Oz, aos 79 anos, consequência de um câncer. Nasceu em Jerusalém, em 4 de maio de 1939, quando o país ain- da era apenas um mandato britânico na então Palestina – fruto da partilha do Império Otomano após a Primeira Guerra. Foi registrado pelos pais como Amos Klausner, mas trocou o sobre- nome ainda jovem, em 1954, quando entrou para o Kibutz Hulda. Lutou nas guerras dos Seis Dias, em 1967, e do Yom Kippur, em 1973. No entanto, Oz deixou o nome na História por suas 40 obras, traduzi- das para 45 idiomas, entre as quais 14 romances, cinco coletâneas de contos e novelas, dois livros infantis e 12 de artigos e ensaios. Acumulou prêmios internacionais, com desta- que para o Goethe, em 2005, e o Prín- cipe das Astúrias, em 2007. Foi indi- cado ao Nobel em 2002, abocanhado pelo húngaro Imre Kertész. Teve intensa atuação política. Criou o movimento Schalom Achs- chaw (Paz Agora, em tradução livre) e foi árduo defensor da coexistência entre israelenses e árabes, abraçan- do, inclusive, a ideia dos Dois Esta- dos. Escreveu artigos para o jornal Davar, do Partido Trabalhista. Mas também, embora fosse considerado um “traidor” por alguns compatriotas da extrema direita, se posicionou pelo direito de defesa de Israel. Chegou a registrar essa posição em artigo para a revista americana Time: “Não acei- to a ideia de que o direito universal de autodefesa não se aplique a Israel”. Talvez pela perda da mãe, Fania Mussman, que, abatida por uma gra- ve depressão se suicidou quando ele tinha 12 anos, talvez pela convivên- cia com a fragilidade e o sofrimento das pessoas nos campos de batalha, Amos Oz desenvolveu uma rara ca- racterística como escritor. Poucos, como ele, traduziram de forma tão sublime, sincera e simples as emo- ções humanas. Desenvolvia suas tramas com suavidade e clareza, mas sem a superficialidade típica deste século XXI. Os sentimentos de seus personagens estão lá, pulsando em primeiro plano, como se cada um deles possa ser encontrado a qual- quer momento nas ruas de alguma cidade israelense. “De Amor e Trevas”, uma auto- biografia lançada em 2002, é como- vente ao narrar a história de sua fa- mília em Jerusalém. Virou filme em 2015, com direção e atuação de Na- talie Portman. “A Caixa-Preta” (1987) é um ro- mance epistolar, desenvolvido a par- tir de cartas e telegramas trocados pelos personagens no ambiente de inquietação política da Israel de 1976, um ano antes da extrema direita to- mar o poder no país. O autor se ocul- ta, não as descreve, não compõe seus perfis, não esmiúça a narrativa: isso fica por conta do leitor, o que dá ao li- vro uma dramaticidade sem igual. Em “Judas” (2014), Oz põe na mesa três questões caras a Israel – e, quem sabe, ao mundo? –, que são as relações entre judeus e palestinos, a traição do Iscariotes para com Jesus e o amor de um jovem por uma viú- va, que perdeu seu marido na guerra. A obra é um labirinto, que só ganha- rá um episódio central lá pela página 160, o que não a desmerece em nada. Seu primeiro sucesso internacio- nal, “Meu Michel” (1968), é a narrati- va da personagem Hana Gonen sobre a sua vida (a dela) em uma Israel mo- derna, cuja história é permeada por conflitos políticos e crises humanas. Há muito mais em Oz, esse escri- tor cujo sobrenome adotado signifi- ca, em hebraico, força e/ou coragem. O mundo, com sua morte, perdeu um gigante literário e um cidadão queri- do entre as nações.