Toda Palavra - cortesia - versão digital Toda Palavra - Número 37 - Page 10

10 - www.todapalavra.info - Palavras Janeiro de 2019 Apio Gomes E agora, José? Cenário [1939/1945]: Segunda guerra mundial, em que Alema- nha, Itália e Japão formaram o que se definiu por Eixo, que invadiu, a eito, diversos países europeus. Foi um conflito que vitimou mais de 45 milhões de pessoas. Carlos Drummond de Andra- de, considerado o mestre maior da Poesia brasileira, em 1942, fez a pergunta mais profunda que um brasileiro comum já ouviu a partir de então: E agora, José? / A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José? / e agora, você? / você que é sem nome, / que zomba dos outros, / você que faz versos, / que ama, protesta? / e agora, José? Está sem mulher, / está sem dis- curso, / está sem carinho, / já não pode beber, / já não pode fumar, / cuspir já não pode, / a noite esfriou, / o dia não veio, / o bonde não veio, / o riso não veio, / não veio a utopia / e tudo acabou / e tudo fugiu / e tudo mofou, / e agora, José? E agora, José? / Sua doce palavra, / seu instante de febre, / sua gula e jejum, / sua biblioteca, / sua lavra de ouro, / seu terno de vidro, / sua inco- erência, / seu ódio — e agora? Com a chave na mão / quer abrir a porta, / não existe porta; / quer mor- rer no mar, / mas o mar secou; / quer ir para Minas, / Minas não há mais. / José, e agora? Se você gritasse, / se você gemes- se, / se você tocasse / a valsa vie- nense, / se você dormisse, / se você cansasse, / se você morresse... / Mas você não morre, / você é duro, José! Sozinho no escuro / qual bicho- -do-mato, / sem teogonia, / sem pa- rede nua / para se encostar, / sem ca- valo preto / que fuja a galope, / você marcha, José! / José, para onde? Em 1949 – quando a Humani- dade ainda juntava seus cacos – o livres de suas profecias / e podemos segurar o destino em nossas mãos. / Vamos aprender a viver com os com- putadores, / os bebês de proveta e a engenharia genética, / os raios laser e os passeios pelo Cosmos, / e ener- gia nuclear e as bombas de nêutrons. Agora, quem sabe, teremos tem- po / para as canções de ninar / e as cantigas de roda. / Vamos observar, prazerosamente, / a linguagem das plantas, / a geografia dos corpos dos amantes, / os gestos livres de injunções, / o sorriso das crianças, / a descontração dos adolescentes / e o andar trôpego dos nossos velhos queridos”. escritor indiano (Índia Britânica) George Orwell, tratou, em seu livro “1984’, de um tema incompreensí- vel naquela época: o que pode ocor- rer com uma sociedade altamente vigiada? E quando essa vigilância transforma-se em mecanismo para controlar as pessoas? Orwell, em sua obra, concebe um partido cujo lema, em linhas Cenário [2019]: (Espaço reser- gerais, é Guerra é Paz; Liberdade é vado para cada leitor refletir sobre Escravidão; e Ignorância é Força; sua esperança ou desesperança). em que o Grande Irmão zela por ti… O grande teórico Wagner não o Grande Irmão é o líder, correto e viveu para reconhecer que os pro- maravilhoso. Mas se você ousar fetas da antiguidade deixaram pensar o contrário, sementes que hi- é ele quem toma as bernam, como os decisões; porque ursos, e eclodem de "Wagner não viveu ele está sempre tempo em tempo. para reconhecer correto. E não está entre que os profetas da nós – que pena! – C e n á r i o antiguidade deixaram para presenciar (e [1979/1982]: os lí- analisar aqui, nes- sementes que deres militares en- te espaço que seria tenderam que o re- hibernam, como os dele) algo nasci- gime ditatorial não ursos, e eclodem de do das entranhas mais se sustentava do Grande Irmão tempo em tempo" e promoveram a ocidental, que seu abertura política, também mestre que foi concluída Umberto Eco soube com as eleições gerais (de governa- dor a vereador), em todo território tão bem definir, depois de uma ce- nacional; com exceção de os prefei- rimônia em que recebeu o título de tos de capitais e de áreas considera- doutor honoris causa em comuni- das de segurança nacional (cidades cação e cultura na Universidade de com refinaria de petróleo, siderúr- Turim, em 2015: as redes sociais. Como um tsunami que se alas- gica importante, energia nuclear e tra pela Europa, ocorreu nos Esta- manancial de água mineral), o que dos Unidos e se reproduz em alguns somente ocorreu em 1985. No Rio de Janeiro, Wagner Tei- países da nossa América Latina: xeira – um mestre da comunicação eles venceram por aqui. E – 77 anos depois – temos redi- e da política: foi um importante professor de nossa geração. Não viva a pergunta de Drummond: E somente em sala de aula, mas na agora, José? Como fui seu amigo e confiden- vida – espera pacientemente fin- dar o ano de 1984 para produzir um te (cheguei a morar em sua casa cartão, cujo texto era uma resposta, por um curto período de pós-ca- samento) arriscaria pedir licença aliviada, a Orwell. ao nosso Wagner e acrescentar Eis a primeira parte: “Drummond” a esta parte final do “Afinal, esgotaram-se suas possi- cartão para que seu texto assuma bilidades / de prever as terríveis coi- a contemporaneidade que merece: sas / que ameaçavam o ser humano. “Pacientemente, reinventaremos A partir de 1º de janeiro, / estamos a roda, / escreveremos à mão car- tas de amor, / releremos os autores clássicos, / faremos longas cami- nhadas, / respeitaremos a natureza, / soltaremos os pássaros cativos. / E deixaremos fluir o amor, docemente, / sem dar atenção aos relatórios de pesquisas / que desvendaram nossa intimidade. Nós vamos, Mr. Orwell (Drum- mond), / voltar à inteireza do sim- ples. / E novamente ouvir os pingos d’água / que caem lá fora, / deixando, como suave lembrança, / o cheiro de terra molhada / que os espertalhões não conseguiram engarrafar. Good bye, Mr. Orwell (Drum- mond). / Adão e Eva vão começar tudo de novo, / a partir do pecado original. Wagner Teixeira / Dezembro de 1984” Ou simplesmente visitaria sua escola de samba do coração – Uni- dos de Padre Miguel – para canta- rolar a música de Martino da Vila: “Vamos renascer das cinzas / Plan- tar de novo o arvoredo / Bom calor nas mãos unidas / Na cabeça de um grande enredo…”. Sobre Wagner Teixeira O jornalista e publicitário Wagner Teixei- ra, relembrado neste artigo de Apio Gomes, é uma persona- lidade lamen- tavelmente pouco conheci- da das novas Slogan criado por Wagner gerações. Sua memória, con- tudo, é cultuada pelos amigos que deixou, os quais ele transformou, com sua personalidade cativante e aco- lhedora, em uma irmandade de alma e espírito. Dono de apurada perspi- cácia e sagacidade política, Wagner teve importante participação na re- construção, ao lado de Leonel Brizo- la, do partido trabalhista que, após a cassação do PTB pela didatura de 1964, se reaglutinou sob a legenda do PDT. É de sua lavra o famoso slo- gan "Brizola na cabeça", que ajudou o ex-governador gaúcho a conquistar o governo fluminense em 1982. (N.R.)