Riscos que nos ameaçam PD50 - Page 177

Criado na década de 50, o Cinema Novo ganharia impulso no início dos anos 60, quando desponta toda uma geração de jovens e talentosos cineastas – além do Nelson, poderíamos citar Glau- ber Rocha, Leon Hirszman, Cacá Diegues e Joaquim Pedro de Andrade, entre outros. Convém destacar que Nelson Pereira dos Santos, membro do Partido Comunista Brasileiro, ao qual aderira ainda na juven- tude, filmou Rio, 40 graus com apenas 26 anos de idade, reve- lando já nessa obra, datada de 1955, um compromisso inabalável com as lutas sociais do povo brasileiro, retratando a realidade de uma favela carioca. O interessante neste filme é que ele adotava um ponto de vista resolutamente urbano, quando sabemos que, mais tarde, o Cinema Novo enveredaria pelo caminho da roça, em busca do Brasil profundo. Ao que tudo indica, para a maior parte dos nossos diretores, é como se o mundo agrário, por ser mais tradicional, fosse automaticamente mais autêntico, em contrapo- sição a um espaço urbano mais cosmopolita e, portanto, permeá- vel às chamadas influências externas. Nunca é demais lembrar que aqueles eram os tempos das Ligas Camponesas e da guerri- lha de Sierra Maestra, com destaque para a questão agrária na América Latina em geral. Formado no PCB, Nelson tinha uma visão mais moderna, se podemos dizer assim, da realidade da época. Se fôssemos trans- portá-lo para a realidade russa do início do século XX, nada tinha de um narodnik, por exemplo. De qualquer modo, até o advento do Cinema Novo, a produção brasileira limitava-se, praticamente, a revelar despretensiosas chanchadas, um gênero cômico sem maiores compromissos com a realidade social e política do país. Talvez – e colocamos isto aqui como uma hipótese, naturalmente – Nelson, como artista extremamente sensível que era, já sentia soprar os novos ventos do desenvolvimentismo e da industrializa- ção que Juscelino Kubitschek imprimiria a seu governo. Afinal, naquele mesmo ano de 1955, se daria a eleição de JK, empossado no ano seguinte. Seu Plano de Metas – para o qual colaborariam Celso Furtado e Ignácio Rangel, respeitados economistas – colo- caria o Brasil nos trilhos da democracia com arranque econô- mico. Era um período privilegiado para a nação brasileira. Inversamente, ao ser submetido à rigorosa censura estabele- cida pelos sucessivos governos militares pós-64 e cada vez mais fraccionado por disputas internas, o Cinema Novo perdeu boa parte da sua influência cultural. De toda forma, devemos ao O mais belo filme de Nelson Pereira dos Santos 175