Riscos que nos ameaçam PD50 - Page 30

Impossível deixar de notar, no interior do campo real que se mal chama de centro, raciocínios e procedimentos análogos aos encontrados nos extremos quanto à instrumentalização eleitoral da intervenção e do atentado. É intuitivo concluir que se este espaço intermediário ora está pulverizado em vários projetos pessoais e/ou partidários de pré-candidaturas presidenciais, a polissemia resultante das narrativas é previsível. Se em relação ao atentado a tônica dominante é o protesto quase protocolar, no que tange à atitude face à intervenção federal as variações são bem maiores e seguem a lógica do maior ou menor interesse de cada grupo político em se diferenciar do Governo. A intensidade das preferências quanto ao sucesso ou fracasso da intervenção no Rio de Janeiro é menor entre partidos desse campo esgarçado do que nos extremos do espectro político, exce- ção obviamente feita aos parlamentares daquele Estado. Por isso e não por serem intrinsecamente mais sensíveis ao interesse público, ouvidos “mais ao centro” podem estar mais abertos a argumentos em favor de um apoio institucional unitário à inter- venção para que ela conclua com êxito o seu trabalho. A questão é encontrar razões capazes de incentivar as respectivas bocas a saírem do relativo silêncio para, em condições de desigualdade, disputar espaço nas mídias com as narrativas dos extremos. Isto não ocorrerá por compromisso ideológico com um ideal de justiça ou posicionamento desinteressado em favor de uma política nacio- nal de segurança pública. Esta política teria que ser levada ao topo da agenda de uma candidatura presidencial viável, em patamar de prioridade superior ao ocupado pela ideia de moralização da polí- tica. E no âmago da política social proposta teria que estar a mate- rialização do tema da justiça, apelo que reúne democratas liberais e de esquerda e cujo poder de persuasão é grande no momento vivido no Brasil. Este apelo poderá tornar-se ainda mais significa- tivo e ter tradução eleitoral se a intervenção no Rio apresentar resultados concretos e se estes resultados incidirem sobre o trata- mento do problema da segurança pública no conjunto do país. Dentro dos limites da lei, dos objetivos que, de modo realista, a intervenção federal na área da segurança pública do Rio e o Ministério Extraordinário da Segurança Pública se autoimpuse- ram e dentro também dos limites do incrementalismo que adota- ram como método, desenha-se, no Estado brasileiro, uma política pública. Seu valor intrínseco, enquanto política impregnada de materialidade, supera o de controversas interpretações sobre 28 Paulo Fábio Dantas Neto