Revista SindespRJ REVISTA PRONTA PARA IMPRESSÃO.pmd - Page 13

ARTIGO O MEDO DE NÃO VOLTAR VIVO José Sarney L eio várias pesquisas, numa época em que estão na moda e existem na praça para tudo, e procuro, ao analisá-las, tentar descobrir o que real- mente pensa o povo sobre os proble- mas que o aflige. Não simpatizo com as porcentagens, vou direto aos núme- ros absolutos para que se possa aferir o que de chocante eles nos dizem, pois falam mais do que as palavras. Nessa direção minha maior supresa foi constatar que a primeira preocupa- ção das pessoas não é a corrupção, cuja exposição é bombardeada há três anos, diariamente, pela TV, mas, supreendentemente, é a segurança, a defesa da vida, graça que Deus nos deu e nos faz participar da beleza do mun- do. Voltamos assim às primeiras preo- cupações do homem desde os tempos em que ele pisou na face da terra: a primeira também era a segurança, e isso o levou a trepar nas árvores, a vi- ver nelas, com receio dos predadores e dos inimigos que o matavam para comer. Depois, a segunda era com a comida, pois sem ela não podia viver e a terceira foi o vestiário, para, cobrin- do-se de peles, enfrentar o frio. Quan- do descobriu o domínio do fogo teve uma ajuda substancial para sobreviver às eras glaciais. Agora, depois de sé- culos e séculos, ele volta a ter a segu- rança como sua primeira preocupação. Petrônio, o árbitro de todas as ele- gâncias em Roma, grande poeta, autor do Satiricon, por outro lado, disse que o medo criou os deuses, porque, esgo- tados os meios materiais para defen- der-se, foi buscar um ser maior a quem pudesse recorrer nos momentos de afli- ção e temor. Muitos séculos depois, buscando proteger-se, Hobbes, o grande inven- tor do contrato social, diz que tam- bém o medo levou ao desenvolvimen- to da civilização, ao criar o Estado para possibilitar à comunidade viver sem o “medo continuado da morte violenta”. Pois tudo isso passa pela minha ca- beça quando vejo que o Estado, criado para defender o homem da violência, fracassou. Minha experiência no Sena- do foi de que, ao votarmos as leis para melhorar a segurança, ninguém se pre- ocupava com a vida. Quando o sena- dor Taques apresentou um projeto clas- sificando como hediondos os crimes de corrupção e o emendei pedindo que se considerasse o mesmo para o homicí- dio, consegui a custo o apoio apertado dos senadores, mas o plenário da Câ- mara o derrubou, pois achava que ia en- fraquecer o projeto contra a corrupção, que era mais importante do que matar, do que a vida. Termino tremendo dos pés a cabeça quando leio que em São Luis mataram- se, em 2017, 630 pessoas, e, no mês de janeiro deste ano, até o dia 17, já ti- nham sido praticados mais 34 assassi- natos. Em nossa ilha, que chamamos dos Amores. Estado - lembrando de novo Hobbes, feito para nos dar proteção -, “Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes/ Embuçado nos céus?” (Castro Alves). Uma jornalista resumiu tudo isso numa frase: “O meu receio diário é sair de casa e não voltar viva.” José Sarney Ex-presidente da República, foi governador do Maranhão, deputado federal e senador por aquele Estado e pelo Estado do Amapá. Intelectual e escritor, é também membro da Academia Brasileira de Letras REVISTA SEGURANÇA PRIVADA 13