Revista Crea-SP | nº 06 - Page 20

FINANÇAS A FELICIDADE DO 13º SALÁRIO OS DIAS ESTÃO CADA VEZ mais curtos... Há pouco falávamos sobre o início do ano e, ao passar pela Rua Canadá, em São Paulo, reparei que alguns bancos já estão instalando seus enfeites de Natal. Fiquei boquiaberta! Mais um ano indo embora e tudo numa velocidade louca... Com isso, não há como deixar de falar sobre alguns pontos importantes, como os gastos das festas de fim de ano e o recebimento do tão esperado 13º Salário – que é uma garantia da nossa Lei nº 4.090, de 13 de julho de 1962 e tem uma variedade de propósitos. Do ponto de vista econômico, o 13º Salário tem a função de aquecer a economia no período natalino, mas muitas pessoas, embaladas pelo espírito festivo, esquecem que, no início do ano, além de todo o endividamento acumulado ao longo dos 365 dias anteriores, despesas como o IPVA, o IPTU, os gastos escolares e o Imposto de Renda baterão à sua porta. Fazer uma provisão para os gastos de início de ano pode soar repetitivo, mas mesmo sabendo que esses gastos chegam e pesam bastante, nem sempre o décimo terceiro é guardado. Então, nessas horas o ideal é planejar e escolher com cuidado os gastos que iremos assumir. Nada melhor que ser racional para se equilibrar. Talvez uma viagem mais curta, comprar apenas o necessário, segurar o cartão de crédito ou presentear somente os filhos, já que é muito caro distribuir presentes a todos. Outro ponto: dê prioridade aos pagamentos à vista. Você conseguirá, inclusive, descontos. Dessa forma você não compromete seu orçamento futuro e ainda se força a economizar. Reserve dinheiro para eventualidades e lembre-se de que a segunda parcela do “Muitos gastam dinheiro que ainda não ganharam, comprando coisas de que não precisam, para impressionar pessoas de quem não gostam” 20 | R E V I S T A CREA-SP décimo terceiro salário vem com desconto. Trabalhe em cima de um orçamento mensal e outro anual. Se houver dívidas com juros altos, dê preferência à quitação ou algum tipo de amortização, pois as dívidas sempre têm caráter de urgência. Por isso, se você tiver algum débito em aberto, esse será o primeiro destino do seu décimo terceiro. Outro exemplo: se existe um financiamento imobiliário, vale a pena direcionar o dinheiro do décimo terceiro para antecipar parcelas. Quanto a investir o dinheiro em vez de pagar uma dívida, isso só faria sentido se a taxa de juros pagos na aplicação fosse maior do que a taxa de juros da dívida, ou seja, o valor aplicado cresceria em velocidade maior do que o débito, o que quase nunca acontece, não é? A última Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), apurada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostrou que o percentual de famílias endividadas no Brasil alcançou sua máxima em 2016, com 61,6%, e caiu para 55,6% em janeiro de 2017. Ou seja, mesmo em época de crise é possível evitar ou diminuir o endividamento. Então, vamos combinar: o endividamento é um problema que tem de ser resolvido com o próprio salário. Para isso, recomendo redução nos gastos. Se não conseguimos reduzi- los, é muito provável que o nosso padrão de vida não esteja sendo respeitado. Pagar dívida com o 13º Salário é combater o efeito do problema financeiro; com essa atitude só estaremos mascarando o real e verdadeiro problema: a ausência de educação financeira em toda a família. COMO RESOLVER O PROBLEMA Para sair do endividamento e assumir o controle das finanças definitivamente, o melhor é reunir a família e conversar; fazer um diagnóstico da situação financeira; anotar todos os gastos e, juntos, descobrir para onde vai cada centavo. Com esse retrato do orçamento, é possível identificar onde é recomendável cortar os excessos de despesa. Então, a próxima pergunta é a seguinte : “É possível ser feliz com dívidas”? Essa é uma pergunta que muitos me fazem e eu sempre respondo: “Sim, é possível”. Já perceberam que há sempre um condicionante para a felicidade? E o dinheiro é um deles. Fiquei pensando nisso e me lembrei de um estudo realizado pela Universidade de Harvard sobre felicidade (Grant Study Harvard Happiness) que levou 75 anos para ser concluído. Começou em 1938 e desmistificou a relação entre o dinheiro e a felicidade. A maior descoberta desse estudo foi que bons relacionamentos nos deixam mais felizes e mais saudáveis, independentemente da classe social ou econômica a que pertencemos. Outro detalhe importante apontado no estudo foram os três fatores de motivação das pessoas: 1) Fazer o bem para os outros; 2) Fazer as coisas em que somos bons; 3) Fazer o bem para nós mesmos. Nesse sentido, percebemos o quão condicionante é atrelar a felicidade ao ato de gastar, ao ter e ao possuir. Temos que ser felizes sem condicionar a felicidade à realização dos nossos anseios. Parece frase de bar, não é mesmo? Mas é uma grande verdade. Nossa passagem por este mundo não pode ser baseada em ter, em viver em busca do que não se tem, em pensar que só depois de tudo conquistado é que seremos felizes. Temos que encontrar contentamento no coração por estarmos vivos; ter felicidade em participar da vida das pessoas que nos fazem bem, sendo intensos, independentemente de tudo, vivendo como se fosse o último momento nesta Terra. Muitos vêm, muitos vão... O dia nasce e termina, tudo tem início, meio e fim... Por isso a felicidade, nem de longe, deve ser condicionada ao 13º Salário ou a algo que pode terminar. ◘ A Chefe da Unidade de Contabilidade Janaína Macedo Calvo é consultora nas áreas de Contabilidade, Finanças, Administração e Recursos Humanos e já levou a centenas de pessoas do Brasil e de outros países palestras e treinamentos mostrando que é possível ser feliz e não pagar caro por isso. R E V I S T A CREA-SP | 21