Pathos: revista brasileira de práticas públicas e psicopatologia 5º Volume - Page 69

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PATHOS / V. 05, n.03, 2017 68

Com a Revolução Industrial e as duas Guerras Mundiais, constantes transformações ocorreram na sociedade e no entendimento por família, relacionamentos, cultura e papéis sociais. A figura feminina foi adquirindo maior espaço no âmbito social, a ideia de amor eterno foi modificada, a satisfação dos desejos tornou-se mais importante. Hoje em dia os relacionamentos podem ser menos duradouros, com maior índice de divórcios e menor tolerância a conflitos, porém há maior liberdade, igualdade e muitas vezes maiores possibilidades de alcançarmos a satisfação dos desejos pessoais individuais. Para Lipovetsky (1993/2005), houve uma nova forma de controle dos comportamentos, uma diversificação incomparável dos modos de vida e vivenciamos uma nova fase da história do individualismo ocidental.

Conforme destacado por Bauman (1998), vivemos o tempo caracterizado pelas distâncias encurtadas, pelo imediatismo, pela instantaneidade, pela rapidez da informação e da satisfação dos desejos. As tecnologias do mundo pós-moderno têm cumprido muito bem com seu papel de proporcionar satisfação aos seus usuários. Estamos inseridos em uma cultura na qual a abreviação e aceleração dos relacionamentos tornaram-se comuns, produzindo indivíduos interessados em si mesmos e nas satisfações imediatas que podem tirar das relações.

Para Bauman (2004), é fácil entrar e sair dos “relacionamentos virtuais”, pois parecem ser simples de usar e compreender. Quanto maior for o número de informações recebidas, maior a necessidade de existir a uma espécie de seleção entre as pessoas. O que hoje é atual, amanhã poderá ser considerado como ultrapassado, pois a mudança constante é a característica chave de nosso mundo. Para Lipovetsky (1983), o medo de se ver entregue a paixões incontroláveis e de ser decepcionado, caracteriza “a fuga diante do sentimento”. Lasch (1979). A libertação sexual tem como objetivo erguer uma barreira contra as próprias emoções, possibilitando que as experiências afetivas sejam afastadas e vivenciadas com menor intensidade. (1983).

As relações são mais frágeis, partindo da ótica da força do vínculo estabelecido. Utiliza-se cada vez mais a tecnologia para otimizar a vida, e com isso temos a terceirização de relações humanas para as relações virtuais. O intermédio virtual por vezes torna os laços estabelecidos mais fracos, o compromisso com uma pessoa que “não conhecemos e/ou não convivemos pessoalmente” é menor, exige-se menos e é comum que as conversas ocorram com mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

Obtivemos 160 respostas no questionário. A diversidade de gênero possibilitou a análise imparcial das respostas. Com relação à escolaridade, a amostra da pesquisa resultou em pessoas que haviam concluído o ensino médio até ensino superior completo ou acima, com renda familiar variável entre 1 até mais de 10 salários mínimos. Constatamos que a utilização dos aplicativos de relacionamento é mais frequentemente adotada por adultos jovens, com idades entre 18 a 30 anos. Para Gasset (1930/2016), desde a época de sua publicação, trata-se de um fenômeno natural das transformações que a sociedade atravessa: a juventude é tida como dominante de toda situação. Os jovens em massa habitam com desenvoltura e liberdade para falar de seus movimentos e costumes.