Pathos: revista brasileira de práticas públicas e psicopatologia 5º Volume - Page 43

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No entanto, cabe salientar que esta aproximação permanece no campo da metáfora, revelando uma relação de semelhança entre as duas – pessoa e personagem. A contribuição da obra de Clarice Lispector para este trabalho toca também o título, que é proveniente do texto “Os Espelhos”2 , sua utilização se justifica, pois, a estética desta obra ilustra elementos principais da compreensão teórica desenvolvida ao longo deste estudo.

A paciente procurou o atendimento na clínica-escola de uma universidade particular do sudeste paulistano, sendo seu primeiro atendimento realizado em agosto de 2015. A queixa era de uma desorganização que atingia diversas esferas de sua vida. Foram realizados dezesseis atendimentos com a paciente, de agosto de 2015 a janeiro de 2016, uma vez por semana e com duração de cinquenta minutos. Foram elaborados relatórios semanais da sessão articulados a teoria de orientação psicanalítica winnicottiano, a qual serviu de apoio norteador para a compreensão e manejo do caso. Para a teorização da clínica e orientação das estagiárias, os atendimentos eram discutidos semanalmente com o supervisor clínico. Após o termino deste estudo, o caso continua sendo atendido na clínica-escola da instituição.

Apresentação e discussão do caso: Lampejos de um reflexo

Era uma maldita e não sabia.

Agarrava-se a um fiapo de consciência e

repetia mentalmente sem cessar- eu sou, eu sou, eu sou.

Quem era é que não sabia.

(Lispector, C. 1998, p. 84)

Macabéa, uma mulher de quarenta e três anos, baiana, divorciada há dois anos e mãe de duas filhas adolescentes, que trabalha como diarista, procurou o atendimento na clínica escola em fevereiro de 2015, e tivemos nosso primeiro atendimento em agosto de 2015. Ela chega queixosa por sentir uma desorganização que atinge diversas esferas de sua vida. No entanto, diante do nosso convite, conta sua história com brilho nos olhos. É no encontro dos nossos olhares que Macabéa pôde reconhecer a possibilidade de achar em nós um espaço para ser vista e escutada de uma forma singular. Esta disponibilidade, localizada na pessoa do analista, é sentida pela paciente de uma forma sensível ainda nas primeiras sessões, como um ambiente favorável ao seu desenvolvimento pessoal.