Inominável Nº 3 - Page 62

O espaço

AZUL

entre as nuvens

Escrevo esta «crónica» sob pseudónimo, porque assim pretensamente me engano como se escrever não fosse mais uma modo de revelar que de ocultar. É Abril, e o seu primeiro dia é dos enganos. O que mais faço é enganar-me. Todos os dias visto uma personagem que não é bem minha e engano. A mim e aos outros.

Também sou enganado. Numa ilusão de que posso viver realidades alternativas, de que não prisioneiro de convenções, status, relações. Quando me vieste procurar com flores no cabelo, riso de primavera e rodopiavas à minha volta, tudo isso foi também um logro.

Disse tontamente que deixava tudo por ti, que viveria só para ti. Tarde percebi que nunca foi esse o teu intento, apenas querias apenas a ilusão de te manteres jovem, desejada. Nós homens, somos um bocado burros, mais ainda infantis, vivemos na ilusão de sermos imutáveis.

Nada é, o tempo muda tudo, muda-nos. Escrevi-te que o «faz de conta» me não servia, que comigo era tudo ou nada. Mostraste-te surpreendida como uma criança descoberta a fazer asneira. Não me deixaste uma palavra mais, porque ao matar a minha ilusão feri a tua de morte.

Estas palavras que jamais lerás não são de amargura, apenas constato que chegamos a um beco sem saída em que já não vale a pena caminhar ao encontro do vazio.

Melhor assim, contas saldadas, cada um fazendo o seu percurso da encruzilhada.

Jonathan

Enganos

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Enganos

Escrevo esta «crónica» sob pseudónimo, porque assim pretensamente me engano como se escrever não fosse mais uma modo de revelar que de ocultar. É Abril, e o seu primeiro dia é dos enganos. O que mais faço é enganar-me. Todos os dias visto uma personagem que não é bem minha e engano. A mim e aos outros.

Também sou enganado. Numa ilusão de que posso viver realidades alternativas, de que não prisioneiro de convenções, status, relações. Quando me vieste procurar com flores no cabelo, riso de primavera e rodopiavas à minha volta, tudo isso foi também um logro.

Disse tontamente que deixava tudo por ti, que viveria só para ti. Tarde percebi que nunca foi esse o teu intento, apenas querias apenas a ilusão de te manteres jovem, desejada. Nós homens, somos um bocado burros, mais ainda infantis, vivemos na ilusão de sermos imutáveis.

Nada é, o tempo muda tudo, muda-nos. Escrevi-te que o «faz de conta» me não servia, que comigo era tudo ou nada. Mostraste-te surpreendida como uma criança descoberta a fazer asneira. Não me deixaste uma palavra mais, porque ao matar a minha ilusão feri a tua de morte.

Estas palavras que jamais lerás não são de amargura, apenas constato que chegamos a um beco sem saída em que já não vale a pena caminhar ao encontro do vazio.

Melhor assim, contas saldadas, cada um fazendo o seu percurso da encruzilhada.