Inominável Nº 3 - Page 50

Gosto de passear com calma nas tardes de semana, investigar escrupulosamente os caixotes dos descontos e ficar feliz quando aparece aquele livro fantástico por três euros. Não me importo se a edição é mais antiga ou se a capa está marcada pelo tempo, há descobertas que são as relíquias das minhas Feiras do Livro. Vejo com calma os livros do dia, dizendo olá a quem os vende, sorrindo a quem se cruza comigo, tomando notas das possibilidades desse dia, para mais tarde lapidar os excessos (ou o que tenho que considerar como tal por limitações orçamentais), e levar para casa os felizes seleccionados.

Por vezes a estadia prolonga-se. Nos últimos anos a Hora H anima as noites de semana das dez às onze, e grupos de leitores sedentos de descontos começam a chegar pelas nove e meia da noite. Marcam-se encontros, dividem-se famílias por causa das filas, há quem transporte os novos tesouros em malas de rodinhas, dado o peso das páginas resgatadas.

A minha família de dois não fica em casa e parte para essa odisseia literária de lista no bolso. Prioridades estabelecidas, um guarda lugar na fila (coisa feia e tão portuguesa), enquanto o outro, habitualmente eu, procura os tesouros desejados. Torna-se mais divertido juntando famílias, as de sangue e as de coração, unidas pelo gosto da leitura e a paixão pelos livros. É uma hora que passa depressa, em que se corre e ri, que chega ao fim sem ter sido suficiente e que pede que se volte. E volta-se, claro, que as listas não têm fim, e nunca se regressa a casa de mãos a abanar.

Gosto da Feira solitária, em que sou dona do tempo e dos espaços que visito. Gosto de caminhar imaginando como será ler os livros que levo no saco, e de me sentar algures quando a curiosidade é tanta que começo a ler logo ali. E fico lendo, por vezes sentada na relva, mastigando palavras e levantando os olhos em observações pontuais. Tiro fotografias de memória e guardo no álbum da minha Feira traços de outros leitores. Há um velhinho desgrenhado com quem me cruzo todos os anos, normalmente à noite. É muito magro e corcunda, os cabelos não usam tesoura e evitam o pente, os dedos, tortos e retorcidos pela artrite, procuram livros que enchem um carrinho de compras que sobe (e desce) o Parque aos solavancos. Imagino-o a viver numa casa velha como ele, feita de livros. Estantes a abarrotar, livros no chão, nas escadas, livros a sair pelas janelas. Sigo-o e à chiadeira das rodas gastas, e continuo a procura infinita, a busca por novas descobertas, o prazer de olhar, tocar e escolher livros. Por vezes meto-me nas conversas de leitores indecisos, opino e sugiro, aconselho e ouço pareceres. Partilho o sorriso cúmplice da compra recente com rostos desconhecidos, contudo solidários no prazer imenso da aquisição de um livro novo.

Os meus passos atravessam as quatro estações do ano. Primavera, Verão, Outono e Inverno estão sempre presentes na Feira do Livro. Não há ano que não chova nem ano que não se sufoque nas tardes de sol. Não é estranho levar no saco um panamá e um leque, já cheguei a usar galochas e sandálias no mesmo ano. O vento também vai e no ano passado até houve um mini-tornado. Os livros não foram pelo ar (e ainda bem) mas já me aconteceu levar com um chapéu de sol na cabeça. Não é susto que se deseje, garanto.

Por todas estas razões e mais umas quantas que agora não lembro, espero ansiosa por mais uma Feira do Livro. Os planos são os mesmos, uma monótona rotina repetida ano após ano, que adoro. Quero voltar aos piqueniques com amigos, tertúlias de livros com o lanche que cada um leva e partilha. Estendemos a manta habitual e deixamos a tarde passar, veloz, pela conversa descontraída sobre as últimas leituras. Fazemos a pilha dos livros preferidos e aumentamos a pilha dos desejos em anotações nos cadernos. As listas imensas doem no tempo sempre escasso para ler, mas o prazer das linhas lidas, mesmo que poucas, enriquece-nos os dias, os meses, os anos.

A Feira do Livro de Lisboa está quase a começar e eu já estou pronta. Desde o ano passado.

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Fotos de Gil Cardoso