Inominável - Ano 2 Inominável Nº9 - Page 70

A pele nunca está pronta.

Por negros pêlos de um lado

e loiros finos fios do outro,

perfurada feito granito,

a pele eriçada é a mais bela flora

na epiderme em choque.

Flor repisada, duro espinho

brutal arma na bainha.

Por fim, o acerto é feito

: amor abjeto, a obra

o coito.

Vivos beijos mortos de línguas tensas,

o silêncio é o oco do desejo que sobra.

Na pele dos dois um texto há muito redigido

é um pedido de socorro mal grafado,

o grito de um menino que foi abusado ,

gemido abafado, nada é esquecido.

O medo no ápice do orgasmo

pede colo e paz de abrigo.

Agora só há pressa,

grana gasta e marcas na grama.

Aplacada a gana, os dois buscam

no tempo o que não foram.

No escuro, a quixotesca figura se desfaz

depois de aplacado o furor.

Os homens seguem sem rumo seu rumo,

o que foi amplificado fica não dito.

Junto deles vai a sombra do medo,

cravado na memória do corpo

sob a pele.

Tanto mar...

Baltazar | Brasil

Sob a Pele

Não há pressa na pele papel macio

do homem mais velho;

Não há demora na pele seda porcelana

fria do rapaz de frete.

.

Vivem sós, marcaram esse desencontro.

A pressa do rapaz é olho de águia na grana,

não aprendeu amar.

A demora no olhar do outro é gana,

esqueceu-se como se ama.

Seria bonito de ver se o caso fosse outro,

de amor entre dois homens

encontro de gerações como oração coordenada

pelo desejo nato desinibido

ou a simples sobreposição da pele

à sede de hidratação

ou troca de afeto,

solidão mordida ou apenas fome.

Mas não é o caso,

embora comum é famigerado esse encontro.

Os dois foram tatuados no escuro

marcados pela vida, um será o outro amanhã.

Sendo a pele o maior órgão do corpo

se compreendida tornar-se-ia

e a tudo, o mais humano de nós.

Mas não é o caso o caso desse encontro.

Aqui a pele é moeda de troca

papel de grife

embrulho

do perfume o frasco

perfumaria

mal tocada quebra

tanto mais trocada mais sangra.

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