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Ainda assim, este não é um factor de exclusão (há exemplos de grandes corredores que iam de autocarro), nem suficiente (muitos dos alunos que correm para a escola têm capacidades aeróbicas medianas).

- Força mental e resistência à dor. Os jovens Kalenjin, com 15 anos, passam por uma cerimónia de iniciação violenta, durante a qual não podem fazer um som de dor, um esgar de fraqueza. Em corridas longas, aguentar o esforço é essencial.

- Nasceram em altitude. Viver e treinar em altitude é uma componente essencial para a capacidade aeróbica de um atleta, sobretudo enquanto o corpo está em evolução. Os Kalenjin são um bom exemplo disso e a sua evolução deu-se de maneira diferente da de outros povos que vivem em altitude (falarei disso na parte da Genética).

- Não estão em guerra. Ao contrário de muitos povos com características culturais e genéticas semelhantes, o Quénia tem passado por um período político relativamente estável, à parte alguma violência pós-eleitoral. O que me leva ao ponto seguinte:

Nº 5 - Dezembro 2016

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ESTATÍSTICAS

As estatísticas sobre os corredores de fundo deste povo são tão insólitas ao ponto de parecerem irrealistas:

- Desde 1980, mais de 70% das medalhas em provas de fundo em Jogos Olímpicos, Mundiais de Atletismo e Mundiais de Cross-Country foram para Quenianos; os Kalenjin, apesar de serem pouco mais de 10% da população do Quénia (e 0,06% da população mundial), arrebataram mais de 3/4 dessas medalhas.

- Até hoje, 17 norte-americanos correram a Maratona em menos de 2 horas e 10 minutos; 32 Kalenjins fizeram-no em Outubro de 2011.

- 5 estudantes de liceu norte-americanos correram a milha em menos de 4 minutos; o liceu de St. Patrick, na cidade Kalenjin de Iten, chegou a ter 4 alunos que corriam a milha em menos de 4 minutos, ao mesmo tempo.

As razões para este domínio são várias e nenhuma deles oferece uma resposta total.

CULTURA E GEOGRAFIA

- Roubo de gado de outras tribos. O roubo de gado era uma parte importante da vida tradicional Kalenjin; não era malvisto desde que as vítimas do assalto fossem de outra sub-tribo Kalenjin, o que implicava que teriam de o fazer a grandes distâncias da sua aldeia, e sempre o mais rapidamente possível. Um guerreiro, muren, que o fizesse ganharia com isso prestígio e mulheres – o que pode ter levado a um mecanismo de selecção natural que favorecesse os mais rápidos em longas distâncias. Esta explicação tem sido constantemente afastada, mas recentemente tem sido evidente um padrão de bons corredores de fundo provenientes de tribos que, tradicionalmente, tinham esta prática – os Oromo da Etiópia, os Sebei do Uganda (que vivem do outro lado do Monte Elgon).

- Correm ou andam mais que o normal. Muitos dos Kalenjin que chegaram a corredores de nível inter-nacional vêm de zonas rurais pobres, e muito pro-vavelmente (cerca de 80%) teve de correr ou andar até à escola – comparando, estes alunos têm, em média, mais 30% de capacidade aeróbica que os seus semelhantes.