Date a Home Magazine | Jan / Fev 2014 - Page 41

acordas aqui e vês logo o mar, mas conseguia viver noutro sítio por uns tempos.

Por exemplo, estive muito tentado a ir para Lisboa.

Agrada-me a ideia de viver num apartamento no meio da cidade. Na verdade, sou um incorrigível urbano. Se pudesse, ia viver um ano para Nova Iorque, Paris, Londres, Macau. Gosto da experi- ência de “mudar de habitat”.

Embora seja mais conhecida a sua faceta de mú-sico, quando era novo pensou em seguir jorna- lismo, e só depois se decidiu por arquitetura...

Sim, lembro-me de que na altura tinha essa dú-vida. Depois pensei, se calhar erradamente, que se fosse arquiteto poderia fazer jornalismo, mas que o jornalista não pode fazer arquitetura. Acabei por ter algum contacto com as letras devido aos livros que escrevi - romances, autobiografia, short stories -, e mantive inclusive algum trabalho com jornais. Gostava de escrever.

Via-se a viver da escrita?

Da escrita de viagens, talvez (risos). Houve uma altura em que eu achava muito romântico ser-se escritor e viver uns tempos num lugar diferente – ir para a Sardenha, alugar um “T0” por cima de um café cheio de velhos e escrever todos os dias. Isso é uma coisa que me atrai ainda hoje.

é uma coisa que me atrai ainda hoje.

Prefere estar sozinho para escrever? Prefere o silêncio, a música?

Posso ouvir música, bandas sonoras se calhar mais instrumentais. Eu gosto muito de viajar e as vezes que escrevi, muitas delas, fi-lo em viagem. Houve um livro que fui escrevendo em Barcelona, outro que escrevi quando estive nos Açores. É engraçado porque estando noutro lugar, conhecemos pessoas novas e integramo-las, por vezes, nos romances. Conhecemos sítios diferentes e criamos a partir deles os cenários, e isso é uma coisa de que gosto bastante.

Quando a sua carreira como músico e cantor começou a "ganhar asas", o Miguel optou por se formar em arquitetura. Porquê?

Eu era apaixonado por arquitetura. Fiz o curso nos 5 anos com poucas noites bem dormidas, por causa dos espetáculos e das tournées dos Delfins. A ban- da formou-se em 1984, tornou-se mais profissional em 87, e o período entre 87 e 89 correspondeu aos dois últimos anos do curso, pelo que foi mais com-plicado gerir os estudos.

Quais eram as suas expetativas enquanto jovem arquiteto?

A minha ideia de tirar o curso era uma ideia muito

Entrevista | Arrendar A Linha Com Paixão | REGIÕES

subversiva. Eu entrei no curso a seguir ao verão de 84, exatamente no ano em que saiu o primeiro single dos Delfins, e eu queria desde pequenino ter uma banda, cantar e escrever canções.

Gostava muito de arquitetura, mas tirei o curso mais por segurança. Na realidade nunca pensei seguir a profissão de arquiteto a tempo inteiro.

No fim de 89, 90, formei um gabinete de arquitetura com colegas. O gabinete ficava perto do Cais do Sodré, na Rua do Arsenal. Umas águas furtadas que ficavam num quarto andar sem elevador, como é típico daqueles prédios pombalinos.

Tínhamos a utopia de miúdos que acabam o curso e querem revolucionar a arquitetura. Participámos numa série de concursos. Entretanto, o estágio na Câmara de Cascais surgiu por essa altura porque eu tinha, durante o curso, pedido adiamento da incorporação militar.

Foi nesse ano que o gabinete de apoio ao serviço cívico começou a funcionar, e fui chamado. Acabei por preencher uma vaga na câmara enquanto ar- quiteto.

Trabalhei durante um ano e meio, a receber um pouco mais do que o "pré", que os soldados rece-biam na recruta. Era muito pouco, equivalente 125 euros por mês, e a maior parte era subsídio de fardamento.

Em 1991, quando acabei o estágio na câmara, pediram-me para ficar a tempo inteiro e eu tive de dizer que não. Já tinha muito tempo ocupado com os Delfins.

Achei que, se queria fazer uma coisa bem, tinha de optar. Por muito que tenha ficado com alguma mágoa por ter deixado arquitetura, não estou arrependido.

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