Contemporânea Contemporânea #8 | Page 14

Se a linguagem possui um aspecto necessariamente real – não metafísico – e simbólico – organização lógica dos símbolos em sequências interpretáveis –, ela é constitutivamente imaginária, produzida e internalizada por seres humanos ao longo do tempo e espaço históricos em suas relações materiais de existência, nas quais convencionam, ritualizam, institucionalizam e hierarquizam os dizeres. O indivíduo transforma-se em sujeito por meio da significação que produz nos usos de estruturas discursivas que lhe precedem em uma dada condição de enunciação; torna-se, então, uma posição de fala, em que a experiência, o livre-arbítrio, a singularidade dos usos, a consciência e a intencionalidade não são fenômenos irrestritos, transparentes, a-históricos e de pleno controle das causas e consequências, sob pena de estipularmos uma subjetividade metafísica que causa sem ser causada1.

Em uma relação imaginária especular fundada na alteridade, quando (inter)agimos, consciente e/ou inconscientemente, pautamo-nos nas seguintes questões: quem sou eu para que lhe fale assim? Quem é ele para que eu lhe fale assim? Quem ele pensa que é para que me fale assim? Quem ele pensa que eu sou para que me fale assim? (PÊCHEUX, 1997, p. 83). Cada imagem se organiza por meio de sentidos relativamente estáveis e partilhados em um grupo, embora, devido à opacidade da linguagem, estejam sempre sujeitas à polissemia, aos mal-entendidos e às falhas.

POLÍTICA E SOCIEDADE

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A pertença a um lugar simbólico permite a sensação de identidade, memória, tradição, felicidade, poder, segurança, liberdade, enfim, de sentido de existência. O esfacelamento desse locus, por sua vez, pode produzir experiências de confusão, esquecimento, medo, fraqueza, raiva, submissão e absurdo. A formação de grupos autoritários parece, portanto, ser uma radical tentativa de afirmar um sentido de existência frente ao desamparo2, projetando ódio3 àquele ou àquilo que parece ser a causa última da decadência dos valores ideais do seu grupo e alvo legítimo para o descarrego das suas frustrações4, angústias, inseguranças e medos5 . Violência6 e moralismo são características transversais dos seus discursos.

O medo e o ódio, no caso da intolerância7, são, então, emoções simbolizadas, logo, racionalizadas, na/pela metaforização – associação do campo semântico de um significante X ao campo semântico de um significante Y. Por exemplo, “o outro (X) é inimigo (Y)” – de um determinado desejo de repulsa e no enquadramento metonímico – associação entre uma parte e um todo imaginários, como, por exemplo, quando se diz “sou branco, sou heterossexual, sou cristão” etc. – de uma posição cognitivo-discursiva do eu/nós e do outro nessa estrutura metafórica que os opõe.

Destarte, constrói-se a alteridade negada seja como não humana, seja como abjeta. A reação à ameaça a um signo identitário (corpo, família,

INTOLERÂNCIA E ALTERIDADE

Argus Romero Abreu de Morais