A Capitolina 4, abril 2014 | Page 11

Escrituras 10

O maravilhoso dos contos de fadas faz com que aos poucos a magia, o fantástico, o imaginário deixem de ser vistos como pura fantasia para fazer parte da vida diária de cada um, inclusive dos adultos que já se permitem em muitos momentos se transportar para este mundo mágico, onde a vida se torna mais leve e bem menos operativa.

Imaginação s. f. ( lat. imaginatio, imaginationis). 1. Faculdade que permite elaborar ou evocar, no presente imagens e concepções novas, de encontrar soluções originais para problemas. 3. Faculdade de inventar, criar, conceber”.

(Dicionário CULTURAL. 1992, p. 604)

As situações reproduzidas no conto maravilhoso acontecem num espaço redigido por leis totalmente diferentes daquelas que dominam nosso mundo cotidiano, embora haja uma preferência muito grande pelos bosques e florestas. Quer dizer, neste espaço, onde dominam as leis do sobrenatural e do imaginário, não existem distâncias e os personagens podem deslocar-se com grande facilidade da terra para o céu e deste para o mar.

Com isso, o conto maravilhoso pode até introduzir a situação inicial com a famosa frase “Era uma vez, num reino muito distante...”; contudo, num mundo imaginário e sobrenatural, o que menos importa é a localização temporal. Tudo acontece de repente e a duração dos acontecimentos não é cronometrada pelas mesmas unidades temporais que vivenciamos. Por exemplo, se o autor diz ‘dia’, ele está se referindo a um momento sideral preciso que altera o dia e a noite. O tempo é apenas uma paisagem da situação vivida pelos personagens.

Num espaço e num tempo assim constituídos, não se poderia esperar que habitassem seres como a gente. Pelo contrário, este é o mundo habitado pelos seres maravilhosos: fadas, magos, bruxas, anões, gigantes, gênios, gnomos, ogros, dragões, duendes e outros seres criados pela natureza. Todos eles convivem com grande naturalidade e nada que lhes ocorre é considerado estranho. Também não conhecem o processo do crescimento biológico. São crianças e adultos, mas não sofrem a ação do tempo, já que este não existe. A velhice ou a juventude faz parte do caráter do personagem. “No espaço sobrenatural não existe tempo real, tudo acontece de repente e justamente, com total arbítrio do acaso. Os personagens existem, mas não foram criados por leis humanas. São, antes, fenômenos naturais. Por isso são seres encantados”. (MACHADO, 1994, p. 43)

Todo conto popular revela uma tendência muito grande para o encantamento: aquelas situações em que ocorrem transformações provocadas por algum tipo de magia, que não são explicadas de modo natural. Há aquele tipo de história em que o encantamento ocorre em qualquer circunstância, pois o elemento mágico está presente em toda parte. Mas há também, um tipo de conto maravilhoso em que as transformações são privilégios de alguns seres encantados, dotados de poderes sobrenaturais. As narrativas mais significativas deste modelo são as histórias dos contos de fadas. São as histórias que, como o próprio nome diz, se concentram nos poderes mágicos das fadas, dos magos ou de algum outro ser dotado de poderes sobrenaturais.

“Fadas: são os seres que fadam, isto é, orientam ou modificam o destino das pessoas. Fada é um termo originado do latim fatum, que significa destino”.

(MACHADO, 1994. p. 44)

Ainda que não se possa localizar no tempo a origem desses seres, a nossa tradição cultural se encarregou de definir as fadas como seres simbólicos, dotados de virtudes

positivas e poderes sobrenaturais, concentrados em suas varinhas mágicas. Por isso,

elas sempre aparecem nos momentos de grandes conflitos, quando as pessoas

pensam que seu destino está tomado por uma fatalidade da qual é impossível fugir.

Assim sendo, o conto de fadas torna-se uma manifestação valiosa na representação

dos sonhos e dos desejos humanos, os mais profundos e significativos.

A professora com a qual realizei a entrevista diz que “o importante é que o maravilhoso

acontece no mundo da magia, do sonho e da fantasia, onde tudo escapa às limitações

da vida humana e onde tudo se resolve por meios sobrenaturais”. Foi bastante

interessante ouvi-la contando sobre a reação das crianças nos momentos em ela conta

as histórias, como trabalha com a entonação da voz e como as crianças reagem às

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situações vividas pelos personagens. Ela contou que é muito fácil perceber as

emoções sentidas pelas crianças através de um olhar, de um sorriso, de um olhar de

medo e até mesmo pela torcida de que, no final da história, o bem vença e os

problemas se acabem e que sejam felizes.

Durante o relato, ela também contou:

“Tenho observado, no meu fazer pedagógico, satisfação e encantamento de crianças que variam dos 6

aos 10 anos de idade, cada vez que trabalhamos com contos de fadas. Ouvem com atenção, participam,

opinam, contam estórias, etc. Através da fantasia, da imaginação, transmite-se à criança, valores que

poderão auxiliá-la na sua formação, ajudando-a a superar medos, a enfrentar situações difíceis, enfim

encorajando-a para alcançar o equilíbrio”.

Após leituras e comentários com a professora fiquei a pensar neste processo

encantador pelo qual passa a nossa imaginação; o escritor, ao escrever, trabalha com

sua imaginação para que o leitor venha a imaginar aquilo ele escreveu, e talvez o que o

escritor imaginou pode não ter nada a ver com o que o leitor imaginou.

É incrível o quanto a nossa imaginação é livre; ao ouvirmos uma história ou ao lermos

um livro, podemos viajar pelo mundo todo, por lugares nunca vistos, imaginando seres

e situações nunca vividas antes. Por meio da imaginação podemos resolver nossos

problemas, viver nosso presente, planejar nosso futuro e aprimorar nosso passado.

Imagino como é mágica a imaginação das crianças; para elas tudo parece tão real,

mesmo no mundo imaginário. Quantas crianças possuem um amigo imaginário, com o

qual brincam, conversam, cantam e até mesmo contam histórias imaginadas por elas

mesmas. E este se torna um ser “real”, vem a ser uma realidade que vive somente no

imaginário da criança. A professora acrescenta “um conto bem narrado ativa e

intensifica toda uma série de experiências na criança, pois através da fala, dos gestos,

da entonação da voz, o narrador atribui sentido ao que está sendo narrado”.

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Comparo a imaginação infantil ao planejamento por meio de sonhos que alguns

adultos se permitem passar; a diferença é que, em alguns casos, os sonhos podem se

tornar realidade, e isto é o que faz com que a vontade de sonhar continue viva.

Imaginando o que foi Imaginado